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8 de Maio de 2021

Divórcio grisalho, cinza, tardio (gray divorce)

O maior número estatístico de divórcios após os 50 anos de idade e seus reflexos jurídicos.

Patricia Novais Calmon, Advogado
há 11 meses

Há anos a literatura americana tem voltado a sua atenção ao divórcio tardio, denominado em inglês de “gray divorce”, que reflete a cor cinza, ou grisalha, dos cabelos dos envolvidos[1]. Isso significa que é um divórcio entre pessoas com idade mais avançada, e que traz consigo uma série de peculiaridades atinentes ao especial período de vida por elas vivido.

Em pesquisa realizada pelo centro americano de pesquisas Pew Research Center, constatou-se que, entre os anos de 1990 e 2015, o divórcio de pessoas com mais de 50 anos de idade dobrou, enquanto o de pessoas com mais de 65 anos de idade triplicou.[2]

Embora os mais jovens continuem se divorciando mais[3], essa mudança em relação aos mais velhos faz com que alguns autores afirmem, inclusive, que há uma revolução do divórcio tardio (“gray divorce revolution”)[4].

Sem dúvida, tratam-se de dados bastante fortes, principalmente porque demonstram que há uma mudança cultural entre as pessoas mais velhas.

Aliás, a própria pesquisa esclarece que esses altos índices de divórcio foram liderados pelas pessoas inseridas na geração dos “baby boomers”, isto é, entre aquelas nascidas entre 1943 e 1964, que já são parcela das atuais pessoas idosas.

Certamente, aspectos geracionais trazem consigo uma série de valores, interesses e signos que acabam impregnando os comportamentos dos indivíduos daquela própria geração. Não é demais dizer que a era dos “baby boomers” é aquela que liderou a emancipação feminina, o direito ao sufrágio universal, o surgimento das principais leis de divórcio ao redor do mundo, a ascensão da igualdade entre gêneros, a maior inserção da mulher no mercado de trabalho, enfim, presenciaram e foram personagens centrais nessa cultura da emancipação que nos conferiu a liberdade que temos hoje. Seguramente, pode-se afirmar que as mudanças ocasionadas na segunda metade do século XX trouxeram mudanças de relevo em diversas searas, inclusive nas formas de se relacionar e formar família.

Todos esses fatores influenciaram vigorosamente o próprio conceito de envelhecer, remodelando a ideia de felicidade e, principalmente, de liberdade. A essa constatação, inclusive, chegou a antropóloga Mirian Goldenberg, que realizou uma longa pesquisa que contou com depoimentos de com mais de 5 mil homens e mulheres de 18 a 98 anos.[5]

Deveras, essa nova forma de envelhecer também acaba refletindo na própria estrutura familiar dessas pessoas. É justamente aí que se insere o divórcio cinza.


Para ler o artigo completo, encaminhe e-mail para patricia.novais@gmail.com.


Patricia Novais Calmon é advogada especialista em direito das famílias, sucessões e idoso. Mestranda em Direito Processual pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Presidente da Comissão da Adoção e do Idoso do IBDFAM-ES. Diretora da Associação de Advogados do Brasil (ABA-Vitória). Membro da International Society of Family Law.


[1] Também denominado por alguns de “later life divórcio”, algo que pode ser traduzido para o português como divórcio tardio. Disponível em: https://www.womansdivorce.com/late-life-divorce.html. Acesso em 28 abr 2020.

[2] Disponível em https://www.pewresearch.org/fact-tank/2017/03/09/led-by-baby-boomers-divorce-rates-climb-for-americas-50-population/. Acesso em 29 abr 2020.

[3] “Still, the divorce rate for those younger than 50 is about twice as high as it is for adults 50 and older.” Disponível em https://www.pewresearch.org/fact-tank/2017/03/09/led-by-baby-boomers-divorce-rates-climb-for-americas-50-population/. Acesso em 29 abr 2020.

[4] BROWN, Susan L.; LIN, I-Fen. The Gray Divorce Revolution: Rising Divorce Among Middle-Aged and Older Adults, 1990–2010. Journals of Gerontology Series B: Psychological Sciences and Social Sciences, 67 (6), 731–741, doi:10.1093/geronb/gbs089. Advance Access publication October 9, 2012. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3478728/pdf/gbs089.pdf. Acesso em 29 abr 2020.

[5] Em novembro de 2017, Mirian Goldenberg realizou uma conferência no TEDx São Paulo, que se chamava “A invenção de uma bela velhice”, conferindo informações a respeito de sua pesquisa. O vídeo culminou na publicação do livro “Liberdade, felicidade e foda-se”.

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