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3 de Junho de 2020
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    O isolamento decorrente do coronavírus e a intensificação da transformação digital da sociedade

    A pandemia potencializa a nossa era digital, mas será que existem riscos?

    Patricia Novais Calmon, Advogado
    há 2 meses

    Vivemos em tempos difíceis e incertos. A decretação da pandemia pela Organização Mundial da Saúde tem acarretado uma série de obstáculos na vida de pessoas ao redor de todo o mundo, trazendo reflexos nas mais diversas searas, como na área da saúde, economia e política, por exemplo. Mas vamos além, já que a situação vivida tem alterado sensivelmente a dinâmica social em si.

    Não é nenhuma novidade que vivemos em uma sociedade ultra conectada. Entretanto, a necessidade de quarentena e isolamento social fazem com que haja uma remodelação na forma pela qual as pessoas se relacionam.

    Antes, as pessoas tinham a possibilidade de se encontrar presencialmente para uma série de atos: por trabalho, por negócios, por aprendizado, por amizade, por amor... enfim. E sim, isso acabava representando uma pausa, ainda que momentânea, dessa nossa vida digital. Conversas olho no olho, aperto de mãos, abraços e beijos eram permitidos e, de fato, representavam a nossa própria natureza gregária. Hoje, esse contato pessoal, íntimo e tão importante tem sido substituído, em nome da saúde pública, por conversas telefônicas e por videoconferência.

    Certamente, a tecnologia de hoje exerce relevante função na manutenção de relações sociais, já que diante dela é possível estar perto, mesmo estando longe. Seria inimaginável viver tal crise sem uma rede wi-fi por perto, não é mesmo?

    E, ademais, essa pandemia tem feito com que fiquemos ainda mais dependentes de tanta conexão. Estamos testando novas formas de nos relacionar com amigos e família, trabalhar e celebrar negócios, apenas para citar alguns exemplos.

    Mas, embora extremamente positiva nestes tempos, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) nos adverte que viver em uma era digital pode apresentar oportunidades, mas também riscos para o nosso bem-estar. Esta afirmação ganha novos contornos em um mundo operado através de home office.

    Não se tem dúvida de que as tecnologias digitais podem melhorar a vida das pessoas de uma maneira geral, pois fornecem acesso a mais informações e serviços a um custo reduzido, como à educação, à saúde, a bens de consumo por compras on-line, e ainda, nesse contexto de crise, reduzem o tempo de transporte via teletrabalho. Isso só para citar alguns deles.

    Por outro lado, essencial destacar que as tecnologias digitais também envolvem riscos. Estes podem perpassam por questões de segurança cibernética (pela existência de cyber-bullying ao surgimento de desinformação e hackers da vida privada), além de graves prejuízos na vida social das pessoas e da sua saúde mental (através do uso extremo da Internet). Mas não só.

    O principal ponto é que viver em uma era digital, potencializada por uma pandemia, mostra também que ainda há muita desigualdade na sociedade. Não apenas no acesso à tecnologia, mas também pela inabilidade de muitos em encontrar, avaliar e compor informações claras por meio da escrita e de outras mídias em várias plataformas digitais. É o que se denomina de ausência de literacia digital, a demonstrar que enquanto alguns a possuem, outros não possuem tal habilidade no uso eficaz da tecnologia digital.

    Essa pandemia poderá acarretar transformações permanentes em todos nós. Não saberemos qual sociedade nos encontrará após meses de isolamento social. Mas, diante de todo esse contexto, onde toda a movimentação social tem ocorrido através de telas de smartphones ou computadores, estaríamos nos esquecendo daqueles que não se encontram inseridos nessa cultura ultra conectada? E mais, nos habituar com essa ausência de olho no olho irá realizar, de fato, um benefício a todos os que se encontram inseridos nessa cultural digital?

    A própria OCDE responde tais questionamentos, como visto. E, por isso, a palavra central continua sendo o equilíbrio entre a vida real e digital.

    A conclusão que se pode chegar é que, durante e após a cessação da crise, a sociedade não fique cega para as necessidades do outro e nem se esqueça que existe vida fora das telas. Não é preciso sequer que estejamos diante de uma pandemia para que tal constatação seja verdadeira, mas, não podemos negar que agora, mais do que nunca, ela se faz necessária.

    Patricia Novais Calmon

    Advogada especialista em Direito das Famílias e Sucessões, Infância e Idoso. Mestranda em Direito Processual pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Presidente da Comissão da Adoção e do Idoso do IBDFAM-ES. Diretora da Associação Brasileira de Advogados (ABA-Vitória). Membro da International Society of Family Law.

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